Conversa com Welket Bungué


“Try better, do better.”

Welket é uma coisa que faz a reviravolta, que parece que vai ser uma coisa e depois é outra. Nascido com um nome como Welket N’cabna Tambá Bungué, muitas são as ideias que nos podem vir à cabeça sobre este actor luso-guineense de 26 anos. Nascido na Guiné-Bissau, “pubertado” em Beja, estudado na ESTC e finalmente a trabalhar em Lisboa, Welket é uma surpresa pelo que parece ser, e ainda mais pelo que ainda vai ser.

Mas quem é este tipo?
Welket é um actor que costuma trabalhar com David Silva na Homlet de Beja e na Rastilho de Lisboa. Um performer graduado pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, e entrou nos Morangos com Açúcar e Equador da TVI. Entrou num filme de Bollyhood e em várias curtas e longas metragens portuguesas. Para além disso está a editar a sua primeira curta-metragem, financiada pela Fundação GDA e por um dos poucos crowdfundings em Portugal, que correu bem.

LX Factory
Tinha de o conhcer, por isso fui pela primeira vez fui assistir a uma produção fotográfica no estúdio da DIF, onde outro grande artista, o Herberto Smith fazia magia com as suas falsas direcções ingénuas. Depois das piadas à minha gabardina Inspector Gadget, comprada nos saldos da SALSA, apresentei-me ao Welke e conheci o Welket. A maneira como ele vincou o T final pareceu-me um início auspicioso. Este tipo sabe como fazer os outros perceberem quem ele quer ser, e não estou a gozar, sabe mesmo. Eu é que já conheço actores (daqueles com C, pré-acordo ortográfico) há muito mais tempo ;-)

Apresentados os egos e medidos os níveis de testosterona, combinámos um encontro para depois do almoço. A sessão fotográfica durava há três horas, e depois de tanta roupa hipster-o-punk-afro, os homens precisavam de ir à caça de energia. Afirmei a minha vontade de não gravar a nossa primeira conversa, ao que ele insistiu que gostava da espontaneidade. Hum, isto vai dar luta, pensei. E fui comer uma vitela estufada à tasca que a Marta me levou. (ps:ela comeu mais do que eu.)

Meia garrafa de vinho e pus-me a caminho de Campo de Ourique, a pé, sim, que o vinho é coisa boa para as vistas do caminho. Apesar do Casal Ventoso já não ser o que era, ainda ganhei duas ou três personagens e alguns cenários para próximas peças de teatro. E em tudo isso apenas uma ideia: Como é que vou fazer este gajo falar daquilo que realmente é?

Low Battery
Não tenho bateria, Welket, vamos ter mesmo de falar duas vezes. Aqui o rapaz abriu aquele sorriso de brilhar no escuro e começámos a falar. O que significa Welket, andaste na escola secundária de Beja onde eu dei aulas, estudaste na mesma escola do que eu, e a cena começou a andar. Falámos em high batery sobre tudo e sobre todos, sem preocupações de um registo audio.

Tudo bons actores
Assim sem tretas, o Welket acha que as personagens que faz nascem das acções da história, se faz ou diz isto ou aquilo e a partir daí é que nasce o carácter do personagem, a forma como o personagem vê o mundo. Aqui o Welket exemplificou com o Otelo, (Quer dizer eu é que o fiz exemplificar.) personagem que viaja muito e vê a honra das pessoas que o rodeiam. O actor é o artífice que explora as características e as pistas que os textos dão. E os bons actores? Essas respostas terão de ver e rir, espero, no video. Mas o que é um actor, um actor é um artista sobretudo e um sonhador que se desenvolve para melhorar as suas capacidades, através de leituras, viagens. Os bons actores têm de ser pessoas interessantes e interessadas para poderem construir a vida das personagens.

Bastien
Welket é actor, pensa como actor, mas também consegue escrever e realizar, e tem neste momento, pronta a estrear a sua primeira curta sobre a história de dois irmãos que vivem com Dona Agustina, sua avó adotiva. Bastien é um jovem que viveu numa instituição e volta a casa, mas que não consegue fugir do bairro que o fez crescer e ser como é, e que agora faz o mesmo ao seu irmão. Aqui, chateei-o tanto com as negritudes obcessivas do cinema português, que percebi que este Sebastien Kunta vai trazer luz às salas de cinema. Eu pelo menos fiquei com vontade de ver se a energia deste homem vai passar através da máquina de projecção.

Tchekov ou Shakespeare
Lancei-lhe várias parábolas na sala das artes marciais: Entre escolhas para fazer entre Lisboa, Beja ou Bissau, e escolhas de melhores e piores locais para isto e para aquilo, lembrei-me de uma na muche: Entras num restaurante e, numa mesa estão William Shakespeare e Anton Tchekov, um deles levanta-se da mesa e sai. O que dizes ao que fica? Welket improvisa de imediato, um monólogo em que se apresenta em crioulo, e lhe diz o que já fez, de Shakespeare. Logo, Welket enviou Tchekov para fora da mesa, mas brilha nos olhos quando fala deste autor. Acho que há ali uma história de amor com Tchekov, e muita vontade em ter o número de telefone do Shakespeare :-P

O dia do CACO
Como não ouve registo audio, na nossa primeira conversa, decidimos complicar e fazer um video. Passámos uma tarde nos corredores, ginásios e pavilhões do Clube Atlético de Campo de Ourique, a conversar. Ou pelo menos, eu a fazer perguntas incómodas e ele a tentar esquivar-se. Mas isso poderão ver no video que fizemos, só para complicar ou só porque eu e ele adoramos desafios. Deste duelo de certeza que vão rir muito, ou pelo menos nós vamos, que não somos gente que se leve muito a sério. (Eu acho. Welket?) De tantas coisas falámos que terão mesmo de ver este video a que afetivamente chamámos CACO – Conversas de Artistas. (Welket?)

Porque é que não posso ter um comboio privado?
Se existem jactos privados, porque é que não se pode ter um comboio privado? A pergunta que o artista Miguel Loureiro tinha deixado, deixou o Welket sem saber bem o que dizer. Atrapalhado até de maneira diferente ao que tinha sido até aí. Respirou fundo e respondeu: Se calhar não pode ter um comboio particular mas pode ter um maquinista privado que o leve onde ele quiser. Que pergunta estranha disse ele. Que resposta acertada, digo eu.

Observação: No final, demos um abraço com a sensação que tínhamos acabado de inventar alguma coisa nova, pelo menos uma amizade (a preto e branco) vos garanto, já temos.

Onde podem ver o Welket Bungué?
No quiosque do Camões, e a beber vinho quente pelas ruas do Bairro Alto, e naturalmente na sua página facebook.com/welketbungueofficial e em facebook.com/arrancabastien, a página do Bastien Filme, que estreará em breve em alguns festivais portugueses e internacionais.

Agradecimentos ao Clube Atlético de Campo de Ourique pelos cenários extraordinários que nos ofereceu, nunca imaginei que havia um pavilhão de Hóquei lá, mas há :-)

Esta entrevista foi realizada no dia 14 de Fevereiro de 2014, foto de Herberto Smith.

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escritor de personagens

Pedro Saavedra é um sonhaador com dois aa. É um artista que escreve, representa, pensa e programa como alguém que gosta (sempre) de acordar todos os dias. Formado pela ESTC, já foi actor, escritor, professor, encenador e programador. Foi professor de expressão dramática durante 5 anos. Foi director artístico, de uma companhia de teatro na cidade da amadora, durante 8 anos. E foi programador, de uma estação de metro no centro de Lisboa durante um ano. Actor em novelas, séries e filmes, também faz locuções, mas só ficou famoso uma vez por dizer na televisão: Este canal acaba de ser comprado pelo Sr.Nuno Cabral de Montalegre e a partir deste momento só passará folclore transmontano.

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Eusébio Paulino, Paulo Barcelos, João Mota, Glicínia Quartim, Glória de Matos, Anna Paula, Rui Mendes, Duarte Ivo Cruz, Paulo Morais, Eugénia Vasques, Valentim Lemos, Kot-Kotecki, Alexandre de Sousa, Águeda Sena, Natália de Matos, José Pedro Caiado, Fernanda Lapa, Filipe Crawford, Carlos J. Pessoa, Armando Nascimento Rosa, Abel Neves, Luca Aprea, Maria João Serrão, José Peixoto, Eimuntas Necrosius e Nuno Carinhas.

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